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16 de Dezembro de 2018

Vai lavar uma louça

Reflexões do 8 de março

Processualistas 👠, Advogado
Publicado por Processualistas 👠
há 9 meses

Por: Liana Cirne Lins

Enquanto o tempo dedicado ao trabalho doméstico e ao trabalho materno não for computado como tempo retirado das mulheres para seu aperfeiçoamento profissional e pessoal, nem sequer estaremos perto de atingir a equidade de gênero.

Do que estamos falando? De um recorte da luta feminista, aquele que fica invisibilizado dentro de nossas casas.

Estamos falando de pais divorciados ou mesmo casados cujo tempo dedicado às tarefas domésticas e dedicado aos filhos e filhas nem de longe se compara ao tempo que as mulheres investem nas mesmas tarefas. De filhos crescidos que exploram o trabalho de mães e irmãs et cetera.

Há muito se tem dito que é preciso parar de naturalizar essa divisão injusta do trabalho doméstico e, mais recentemente, do trabalho dedicado à educação das crianças. Dar banho, alimentar, orientar tarefa, levar para o colégio e outras atividades, fazer compras das necessidades, acompanhar o rendimento escolar, administrar uniformes e materiais escolares a cada início de ano podem parecer tarefas triviais, mas consomem uma parte significativa dos nossos dias.

E essa parte do nosso dia nos toma a possibilidade de investirmos em outros planos que necessitamos para nossas carreiras ou simplesmente em outros planos em que desejaríamos investir para nossa felicidade.

E isso não tem absolutamente nada a ver com amarmos ser mãe. Amamos nossos filhos e filhas e o trabalho relacionado a eles. Mas não gostamos, nem aceitamos ser exploradas por quem deveria compartilhar, de forma justa e equânime, o tempo e o trabalho de educar uma criança e/ou de administrar uma casa.

Naturalizar essa exploração do nosso tempo e da nossa dedicação é o motivo pelo qual tantas de nós passam pela síndrome de super-heroínas para fazer o que os homens, com muita sobra de tempo, fazem.

Não é à toa: precisamos estudar (seja línguas estrangeiras, seja pós-graduação, seja aperfeiçoamento ou capacitações), precisamos cumprir a jornada de trabalho formal igual (ou maior) do que a dos homens, precisamos administrar a casa, educar nossos filhos e estar presente na vida deles. E ainda se exige que estejamos bonitas e apresentáveis, o que também exige tempo.

Como seremos capazes de fazer isso, se não por enorme sacrifício físico e mental?

Enquanto isso pais divorciados “visitam” filhos e filhas a cada 15 dias (só a expressão “visita” já deixa notória a desigualdade entre mãe e pai; afinal, quem faz visita é encanador e tia que mora no interior).

E muitos pais casados dividem a casa sem dividir os trabalhos da casa. Alguns chegam a exigir que, ao chegar no lar, encontrem a casa completamente organizada e os filhos em silêncio para que ele possa “relaxar” dos estresses do trabalho.

Há séculos nossa cultura naturaliza isso que só pode ser visto como exploração da força de trabalho da mulher. O feminismo denuncia a dimensão econômica da exploração do trabalho doméstico desde que se configurou como movimento social organizado, e no entanto pouco avançamos numa legislação mais justa para mulheres.

Ao contrário: desconhecemos uma única ação que tenha sido movida contra um pai que “visita” seus filhos quinzenalmente com pedido de indenização pelo tempo de trabalho da mulher dedicado aos filhos comuns.

Por isso é tão difícil para nossos companheiros homens compreenderem que quando eles fazem falas empolgadas em apoio à luta das mulheres, isso de pouco ou nada nos vale se eles não assumirem um compromisso sincero de divisão justa do trabalho doméstico e do trabalho de educação dos filhos: um palavrório vazio que nos mantém presas em casa, enquanto eles ocupam os lugares que deveriam ser também destinados a nós, mulheres.

Notoriamente é o caso da política. Fala-se tanto em sub-representatividade de gênero, mesmo com as cotas para participação das mulheres. A questão é que a cota não lava o uniforme das crianças, não corrige as tarefas, não prepara o almoço e nem vai ao supermercado para nós. Então não adianta abrir espaços formais de representatividade para mulheres, sem que estejam dadas as condições materiais para que possamos participar da vida política.

O velho clichê machista “vai lavar uma louça” ganha outro sentido quando dito aos homens que afirmam apoiar a presença da mulher nos espaços de poder.

Se o homem, casado ou divorciado, não passar a dividir de modo justo o trabalho doméstico e o trabalho de educação das crianças, a exploração do trabalho da mulher continuará sendo um óbice concreto para que ela ocupe espaços de poder nas esferas privadas e públicas.

A ideação Processualistas é uma coluna jurídica, publicada quinzenalmente às segundas-feiras, composta por: Carolina Uzeda, Estefania Côrtes, Fernanda Medina Pantoja, Janaína Noleto, Luíza Rodrigues, Marcela Kohlbach, Marcela Perez, Mariana Ferradeira, Paula Menna Barreto, Renata Fonseca Ferrari, Sofia Temer, Suzana Cremasco, Trícia Navarro e Victória Moreira. Tem por escopo fomentar debates no âmbito do direito processual a partir das reflexões propostas pelas mulheres do grupo.

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Liana Cirne Lins, doutora em Direito Público, Mestra em Instituições Jurídico-Políticas e professora da Faculdade de Direito da UFPE. Advogada.

20 Comentários

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Sobre a exploração das irmãs por filhos crescidos, a mais grave de todas se dá na velhice dos pais. A família escolhe uma filha pra assumir TODAS as tarefas de cuidar do idoso, o que é INFINITAMENTE mais desgastante e trabalhoso de que cuidar de uma criança em idade escolar. Um idoso é como um bebê recém nascido. Mas que pesa 50kg. A dedicação necessária é constante, 24hs por dia, todos os dias. Esse cuidado custa à irmã cuidadora o seu trabalho, sua independência financeira, às vezes até seu próprio casamento, sua vida pessoal, qualquer possibilidade de um segundo que seja de descanso e lazer. E pra piorar, ainda aguentam desaforos dos irmãos, que só visitam de vez em quando e ainda querem "prestação de contas" do destino da aposentadoria do idoso, como se fosse barato cuidar de um, insinuam, ou falam mesmo na cara, que a irmã que está sacrificando a própria vida, está "vivendo à custa" do pai ou da mãe. E como se fosse pouco, na hora de partilhar o dinheiro da venda da casa da herança, fazem questão de ratear por igual até o último centavo e ainda descontam o dinheiro que "emprestaram" nas despesas de inventário. E depois, não querem saber de quê a irmã, a essa altura, ela própria em idade avançada para reingresso no mercado de trabalho, irá viver. E isso só acontece com a filha mulher. Nunca vi um filho homem passar por nada disso. continuar lendo

O fato de você nunca ter visto um filho Homem passar por isso, não significa que não existe. E quando são somente dois irmãos (homens) o que fazem? Abandonam o pai ou a mãe? A esposa do filho homem certamente não vai segurar essa sozinha, então algum dos dois terá que assumir. continuar lendo

@johnatanguerman Jonathan, claro que deve existir. Mas na minha experiência, nunca vi. E vi e vejo no escritório toda hora e já vivenciei pessoalmente. Então posso dizer com propriedade que essa é a REGRA. Exceções, à parte. Mas eu ajudo um asilo onde a maioria dos internos não têm filhas. Então isso responde a você qual é o destino do idoso sem uma filha que o assuma. Nos hospitais, idosos sem filhas que os acompanhe ficam sem acompanhantes. Quando há acompanhante, em geral são noras, sobrinhas... Sempre mulheres. Então eu sei que existem exceções. Sim, já vi filhos acompanhando pais nos hospitais. Por isso, de novo: via de regra, viu? Embora nunca tenha visto um sobrinho homem (já vi sobrinha). E eu posso muito bem falar a respeito porque fui acompanhante de meu pai durante quase 4 meses e pude ver de tudo dentro dos hospitais. E também já acompanhei minha mãe em todas as internações dela. Eu faço comentários sobre o que se vê em regra e sobre o que eu vejo e as impressões pessoais que eu tenho com base nas minhas experiências e não em teoria. continuar lendo

Sem reparos as demonstrações do dia a dia das heroínas. Porém, é de se ater que grande parte do defeito masculino vem de berço. Quando as mães ensinam seus filhos a baixar a tampa do vaso, guardar o tênis ou a chuteira de futebol no local certo, pendurar a toalha molhada, colocar a roupa suja no cesto, lavar a xícara ou copo que usou, devolver o livro na biblioteca, ir a pé para o colégio ou de ônibus sozinho (apos dos 12 anos), cozinhar pelo menos um ovo etc. Certamente este menino será um homem mais Cidadão e independente, e; não terá dificuldade para dividir as tarefas domestica no futuro com sua companheira. Difícil também é encontrar mães ou pai que ensinem seus filhos a procederem desta forma lá na tenra infância. Quando não se tem base, difícil mudar o rumo, quando já inserido no curso do casamento. Taí um defeito de fabricação que as mães podem corrigir melhor que os Pais de hoje; para que num futuro próximo, este garoto venha a ser um Pai, que também transmita tudo que apreendeu com sua mãe e ensine seu filho lá na base, a ser um homem participativo no seio da família. É hora de começar, mas, este primeiro passo (consertar) por hora cabe até então á heroína, mãe! continuar lendo

Corrigir tá dificil com as xuxas da vida.... kkkkk continuar lendo

Quase concordo com vocês.
Primeiro, não vamos tomar todos por alguns, nem que estes alguns sejam maioria. Digo isso para homens e mulheres.
Depois, é preciso escolher o que se quer da vida, pois filhos serão sempre uma responsabilidade que afetará o tempo para outras atividades. É gratificante, mas vai dar trabalho, sim.
A divisão dos afazeres extra profissionais é justíssima e devida e deve ser cultural. Quando nos unimos a uma pessoa que não tenha o mesmo entendimento que temos, certamente, teremos problemas. Então, vamos colocar isso como item para nossas decisões pessoais e assim não esperarmos que a justiça resolva nossa vida.
Já quanto aos pais, o justo seria a divisão de atribuições entre irmãos, mas nem sempre isso é possível, porque pode ser que morem distantes e aí sempre acaba sobrando mesmo para um.
Mas os custos de uma pessoa para ajudar nessa tarefa pode muito bem ser dividido. É difícil e muitos casais idosos hoje se encontram no mais completo abandono. Talvez aí a justiça possa ajudar.
Filhos homens responsáveis passam por isso, sim e conheço diversos, hiper cuidadosos com seus pais. Claro que o nível cultural entra na balança.
Bem, completando minha colocação, a mulher sofre ainda dos fortes resíduos de uma cultura que eu diria, extrapola até o denominado "machismo". É uma cultura de sociedade que colocou a mulher para cuidar dos afazeres domésticos, da educação e saúde dos filhos, dos pais, enquanto o marido ia ao trabalho. Nem sempre tão cansativo. Demorou quantos anos para se enraizar essa cultura? Demorará também para que desapareça. Mas já começou.
Por isso, aconselho: Não esperem dos outros. Não esperem que reconheçam seus direitos. Construam para seu futuro um ambiente onde eles, os seus direitos, estejam preservados.
Mas existirá sempre o momento da escolha e nem sempre será fácil escolher. continuar lendo

Acho que não é escolha, é organização. Trabalhoso e gratificante, sim. Ver-se o resultado do bom trabalho é muito gratificante. Já dizia Paulo: combati o bom combate.... continuar lendo

Lavou-se a louça? continuar lendo

E você, lavou suas cuecas? continuar lendo

A máquina lavou.
Mas minha pergunta não foi respondida. continuar lendo